Nenhum Lugar Para Repousar Meus Olhos (Hong Sang-soo, 2026)

Por Beatriz Panico


Nenhum Lugar Para Repousar Meus Olhos (2026), o longa-metragem mais recente de Hong Sang-soo acompanha Sanghee (Kim Min-hee), uma cineasta experimental amadora, que parte com o irmão (Shin Seok-ho) em uma viagem para a Ilha de Jeju, a fim de visitar sua mãe distante (Choi Myung-gil) e seu novo marido (Kwon Hae-hyo), um documentarista bem sucedido. Após dez anos sem se verem, a visita traz à tona sentimentos de ressentimento que Sanghee ainda nutre em relação ao divórcio dos pais e suas insatisfações em relação à sua própria carreira estagnada.

O filme parece consolidar uma tendência observada nos trabalhos mais recentes de Hong Sang-soo, que evoluíram para além das temáticas relacionadas ao narcisismo masculino para questões de envelhecimento, família e realização pessoal, acompanhando, sem dúvida, o próprio amadurecimento do cineasta que completou 66 anos este outubro. Possivelmente um dos meus favoritos de sua filmografia até o momento, Nenhum Lugar Para Repousar Meus Olhos apresenta uma abordagem menos melancólica e um humor discreto, que se faz presente nas situações constrangedoras vivenciadas pelos personagens.

A relação multifacetada e, francamente, desconfortável entre mãe e filha representa o principal eixo narrativo. A convivência entre a mãe e o irmão de Sanghee, embora também apresente uma evidente falta de proximidade, parece relativamente pacífica: ela aprova a profissão do filho e o considera bem sucedido, tendo ele até realizado outras visitas anteriores à ilha. Entretanto, a relação com Sanghee se prova consideravelmente mais conflituosa.

A mãe demonstra desde o princípio uma postura excessivamente crítica em relação à filha. Além de não considerar seu emprego fixo em uma companhia importadora de salgadinhos uma carreira respeitável, ao descobrir que Sanghee também produz curtas-metragens experimentais publicados em seu canal do Youtube, reage com um choque contido e cômico: “Então, eles não passam no cinema?”; comentário que provavelmente soa familiar para qualquer cineasta independente. A desaprovação materna não se manifesta através de grandes confrontos e sim por pequenas observações pontuais, frequentemente passivo-agressivas, que são capazes de tornar a convivência progressivamente mais desconfortável tanto para os envolvidos quanto para o espectador.

Um dos aspectos que mais despertaram minha atenção foi a recorrência das cenas de refeição. A mesa de jantar, associada tradicionalmente à comunhão familiar, recebe aqui uma função oposta: ela se torna um palco, no qual o distanciamento entre os membros da família é exposto como uma ferida aberta. Esses encontros também são acompanhados de uma formalidade que contribui para acentuar o desconforto da situação. As refeições representam os raros momentos em que muitas famílias são forçadas a compartilhar um mesmo espaço, portanto, aquilo que deveria favorecer uma aproximação, na verdade, serve para evidenciar a dificuldade de comunicação entre eles.

Quanto ao que diz respeito à seus filmes, Sanghee afirma privilegiar a espontaneidade, sem exercer qualquer tipo de planejamento prévio às suas filmagens. Seus curtas funcionam quase como diários, com registros cotidianos acompanhados de narrações em off. Essa metodologia contrasta diretamente com a de seu padrasto, que durante o período da visita, havia acabado de concluir um documentário cujas gravações se estenderam por dez anos. É difícil não reconhecer semelhanças entre a abordagem de Sanghee em relação à realização cinematográfica e o próprio cinema de Hong Sang-soo. Ambos compartilham um interesse pela observação do cotidiano e preferem encontrar significados para suas obras em acontecimentos aparentemente banais, sem sentir a necessidade de seguir uma estrutura rígida.

É justamente através da arte que surge um dos primeiros momentos de aproximação genuína entre Sanghee e a nova realidade da mãe, quando ela estabelece uma solidariedade inesperada com sua nova meia-irmã, filha de seu padrasto. Inicialmente, a presença da jovem provoca um certo incômodo em Sanghee, assim como no espectador, devido à sua atitude excessivamente alegre e carente pela possibilidade de ter uma irmã. Entretanto, ao que ela revela também ser uma artista, as duas compartilham reflexões significativas sobre suas percepções criativas, e a irmã demonstra grande admiração ao assistir os curtas de Sanghee no Youtube.

Diante dessa receptividade, Sanghee gradualmente abandona seus preconceitos e passa a acolher a presença da jovem. Em uma das discussões mais interessantes em que me envolvi à respeito do filme, me foi sugerido que a postura de Sanghee diante de suas produções cinematográficas seria contraditória à forma como ela media suas relações pessoais: ainda que Sanghee defenda um cinema espontâneo e aberto ao inesperado, ela demonstra pouca disposição para conhecer a meia-irmã e continua presa aos ressentimentos que nutre em relação à mãe.

Apesar das críticas constantes, é evidente a forma como a personagem da mãe sente falta da presença da filha, a quem chega a se referir como “meu bebê”. Em um momento particularmente tenso na noite anterior à partida de Sanghee e seu irmão, ela sugere que a filha permaneça na ilha para ajudá-la a administrar o restaurante do qual é proprietária e, eventualmente, assumir o negócio. Embora seja uma tentativa de aproximação, a proposta provoca desconforto em todos os presentes na mesa, sobretudo em Sanghee. Após os anos de ausência, o gesto materno é interpretado como uma tentativa de intervir na vida da filha, cujas escolhas ela não faz questão de esconder que desaprova. Até que ponto, porém, ela teria esse direito? É gerada uma ambiguidade entre o desejo de reaproximação da mãe e sua dificuldade em reconhecer a autonomia da filha.

A narrativa caminha, então, para um desfecho agridoce. Na cena que considero o clímax emocional do filme, Sanghee e a mãe conversam finalmente sobre o antigo casamento, e a mãe revela como seu ex-marido era extremamente egoísta e narcisista, em oposição à figura do padrasto, que sempre a tratou com gentileza. É evidente nesse momento que Sanghee jamais havia considerado verdadeiramente a perspectiva de sua mãe sobre o divórcio e, assim como ocorreu com a meia-irmã, ela se vê confrontada com uma experiência que ela desconhecia e que pode a levar a reconsiderar suas concepções prévias. A cena não funciona exatamente como uma reconciliação, mas representa um pequeno avanço na relação entre as duas. Tanto a mãe, quanto a filha passam a se entender um pouco melhor e, por ora, isso parece bastar. Não é um final propriamente feliz, mas certamente é um final otimista.

O longa se encerra com a exibição de um dos curtas de Sanghee: a imagem de um dente-de-leão crescendo em meio ao concreto, uma imagem que remete à resistência, acompanhada de uma narração na qual a protagonista reflete sobre o cinema. Em determinado momento, ela afirma: “Eu aceito tudo. Estou em silêncio”, uma vez que a câmera acolhe aquilo que se apresenta diante dela, sem estabelecer hierarquias sobre o que merece ou não ser filmado. Porém, a frase adquire uma dimensão que ultrapassa o fazer artístico e diz respeito à jornada da protagonista. Se, em seus filmes, Sanghee busca observar o mundo sem determinar arbitrariamente o valor daquilo que encontra, sua experiência na ilha introduz a possibilidade dela assumir uma postura semelhante diante das pessoas. Isso implica em uma disposição para reconhecer perspectivas diferentes e manter a mente aberta para as surpresas que podem surgir ao longo dos relacionamentos.

Foi durante essa sequência final que o título Nenhum Lugar Para Repousar Meus Olhos ganhou sentido para mim. Algo no cansaço e no desejo de repousar os olhos cria as condições perfeitas para momentos como os registrados por Sanghee, em que somos capazes de desacelerar e perceber a beleza improvável de um dente-de-leão crescendo na calçada que, em outras circunstâncias, passaria despercebido.