Entrevista de Humberto Silva ao jornalista Paulo Henrique Silva1

Paulo Henrique Silva – A adaptação de um livro, no caso A Odisseia de Homero realizada por Christopher Nolan, é uma tarefa difícil por causa da diferença entre as linguagens de um poema e de um filme. Tirando esses fatores, um filme precisa ser fiel à obra que o inspirou ou essa exigência parte mais dos fãs da obra original?
Humberto Silva – A premissa básica para mim: na literatura – romance ou poema – imagens são formadas na imaginação; no cinema, em contrapartida, imagens são projetadas na tela. Ora, quando lemos um romance, ou um poema, caso de A Odisseia, a descrição de um evento qualquer se oferece à imaginação.
Disso resulta que a imagem concebida por duas pessoas para um mesmo evento descrito não é a mesma: se for pedido a que elas o descrevam, as descrições quase com certeza serão diferentes. Ou se não muito provavelmente jamais serão idênticas. Um detalhe ou outro esquecido por um será lembrado por outro. E esse “detalhe” pode eventualmente modificar, por exemplo, o julgamento a respeito do caráter de um personagem. Um olhar de esguelha e tudo muda.
As imagens em um filme, com isso, em última instância resultam da imaginação propiciada pela leitura pessoal, portanto subjetiva, que um diretor, no caso o Nolan, fez do livro. Como cada pessoa pode imaginar algo diferente daquilo que vê projetado na tela, é inevitável que uma adaptação suscite as mais variadas discordâncias.
Claro, aqui suponho no caso de A Odisseia que mesmo fugazmente se tenha a leitura do poema para se fazer qualquer tipo de comparação. E justamente por isso se possa perceber que a adaptação de um filme implica não só em imagens diferentes das imaginadas por um espectador como em recortes e acréscimos à obra lida. Recortes porque é inimaginável conceber doze mil versos totalmente integrados ao filme exatamente como no livro, se se parte do pressuposto de fidelidade absoluta. Recortes então são tão inevitáveis quanto estimulam polêmicas.
Ocorre que além de recortes numa adaptação também é necessário fazer acréscimos, inclusões não extraídas diretamente dos versos do livro. Só para acentuar: imagens projetadas na tela são obtidas de objetos reais e não imaginários. Homero não descreve o cavalo de madeira com uma forma e dimensão precisas, ele tão só aponta para sua presença como estratagema para os aqueus submeterem os troianos.
De modo que a forma e a dimensão que o cavalo teria podem apenas ser imaginadas. Num filme, no entanto, a se incluir o cavalo, é inconcebível que ele não tenha forma: ocorre que o cavalo visto no filme não está no poema, pois no filme o que se vê é o cavalo imaginado por Nolan.
E aqui, para além das dificuldades de adaptação, toco no outro ponto de sua pergunta, a fidelidade. Enquanto expectativa, em uma adaptação uma pessoa pode esperar uma fidelidade máxima em relação ao que ela imaginou ao ler o poema. E essa mesma pessoa pode se frustrar com o que vê projetado na tela.
Essa fidelidade, contudo, é uma fidelidade imaginada pelo leitor. Ora, quem lê o poema não tem diante de si a embarcação ou o cavalo a que Homero se refere em seus versos. A infidelidade para alguns não implica que, com respeito aos recortes feitos, conscientemente Nolan não tenha tido a intenção de ser fiel ao livro.
O caso é, e nisso para mim uma confusão, julgar o filme como bom ou ruim conforme ele seja mais ou menos fiel ao que é extraído diretamente do livro. Entendo que atribuir valor positivo a uma adaptação fílmica em razão de sua fidelidade à obra literária é um equívoco: uma adaptação cinematográfica infiel a um livro pode ser melhor, a se levar em conta que se trata de uma realização cinematográfica, que outra adaptação cujo objetivo seja o de ser a mais fiel possível.
PH – Como você viu a retirada do caráter mais fantasioso do poema com a ausência dos deuses e uma atenção aos personagens humanos, que oferecem uma obra mais realista do filme do Nolan? Essa retirada faz sentido para você?
HS – Essa, de fato, uma das controvérsias em torno dos recortes feitos. Em linhas gerais, ela procede, pois A Odisseia de Nolan diminui o quanto pode o espaço para a fantasia, para a presença divina, para o irreal em proveito da ação, da aventura, da espetacularização dos desafios a que Ulisses se expõe.
Essa opção dele eu acho válida à medida que seu filme se insere na lógica do espetáculo. Não se pode perder de vista a engrenagem que movimenta uma obra com o investimento que teve e com a massificação do público a que ela se destina. Como adaptar exige recortes, esses foram feitos para favorecer a aventura, o espetáculo visual.
Faço, contudo, uma ponderação. Atena, Hermes, Circe, Calypso aparecem humanizados de modo a não se acentuar o fantástico. Mas, convém não esquecer que são divindades devidamente presentes no filme. A ausência de deuses não pode ser considerada ao pé da letra.
Por outro lado, Zeus e Poseidon, cruciais à narrativa homérica, não estão na Odisseia de Nolan. Só que há um detalhe aqui: Zeus e Poseidon aparecem no poema como forças da natureza e não como presença física entre os humanos. Trocando em miúdos: eles não assumem forma humana, não convivem com humanos.
O que acho bastante interessante na controvérsia sobre a ausência de deuses no filme? Ela permite que se tenha atenção para o que é próprio à literatura e o que é próprio ao cinema. No poema, a palavra Poseidon é requerida para que se expresse a fúria do mar: ela decorre da vontade de um deus devidamente nomeado. No filme, a imagem de uma tormenta apavorando todos na embarcação bastaria para o público, leitor de Homero, saber que esta resultou de vontade divina.
Caso o filme exibisse a imagem de Poseidon, entendo que esta imagem se assemelharia a exibir uma coisa branca com a legenda: isto é branco. Não sei, não “imagino” a intenção de Nolan, mas é assim que recebi a “ausência” de deuses em sua Odisseia.
PH – Fale sobre a importância de se pôr em evidência hoje uma obra clássica e sobre eventuais mal-entendidos que isso possa acarretar.
HS – Acho importantíssimo ver que A Odisseia está tão em evidência. Em sentido estrito, o que quer que se entenda por cultura passa necessariamente por aquilo que os gregos e Homero fizeram. Isso tanto para o bem quanto para o mal. Conhecer os gregos é um pressuposto, principalmente, para que se possa bater de frente com a chamada cultura clássica.
Num momento em que novas gerações afirmam o presente e viram as costas para o passado, acho que o passado poderia ensiná-las a não se iludirem com as armadilhas de presente. Agora, bem entendido, admito que, mesmo indiretamente, mesmo que não haja intenção explícita, nos pormenores uma obra cinematográfica como A Odisseia de Nolan reflete mais o presente do que se possa apreender.
Isso atrapalharia a percepção da obra original? Esse um ponto bem embaraçoso. Se eu entender original como o grego da época de Homero, apenas uma fração diminuta de eruditos poderia se manifestar.
Nolan trabalhou com uma tradução de Homero para o inglês. Aliás, uma tradução recente, da helenista Emily Wilson, com vocabulário modernizado. Ela, por sinal, não recebeu bem a adaptação feita por Nolan. Certo, mas então, o Homero que a imensa maioria das pessoas tem acesso é traduzido. E toda tradução, diz o dito popular, trai o original.
O que acontece é que Nolan, sensível ao presente, tomou liberdades. Pôr no papel de Helena de Troia uma atriz negra, por exemplo. Não há como supor, fora dos tempos atuais, essa escolha. Ora, para o bem ou para o mal, Helena simboliza o ideal de beleza clássica feminina. É com esse ideal que se pôde conceber a representação da beleza feminina na arte renascentista.
Caso essa escolha possa atrapalhar o que seria o original em Homero há de se levar em conta, por outro lado, que justamente ao refletir o presente com essa escolha Nolan põe em pauta a importância de se discutir o ideal clássico de beleza.
Numa alusão enviesada à Estética de Hegel, uma obra de arte é fruto de seu tempo e, assim sendo, reflete seu Zeitgeist. E para não deixar dúvida, pois não vejo como não tendo esse propósito, a desfiguração do rosto de Helena explicita o mal-estar que Nolan intenciona causar ao refletir o Zeitgeist no qual o wokismo se faz presente. Ignorar isso é perder de vista o “sentido da história” em sua relação com a arte.
A Helena no filme não é grega. A Helena grega, motivo da guerra com troianos, está no poema.
PH – Alguns realizadores se apressem em adaptar obras literárias para, justamente, pegar carona no hype. Esse definitivamente não é o caso do Nolan. Mas, antes do filme o poema circulava somente entre acadêmicos? Qual a importância do poema para literatura mundial?
HS – Passada a “corona”, como você menciona, Homero e sua Odisseia voltarão ao lugar em que estiveram antes de Nolan. Não tão esquecidos a ponto de que se esqueçam expressões do vocabulário comum antes do filme, como “presente de grego” para se referir a uma arapuca posta por alguém no caminho, “nem grego nem troiano” para quem não toma partido numa arenga político, “aventura homérica” quando se quer dizer que uma tarefa enfrenta dificuldades colossais. Enfim, de algum modo A Odisseia nunca foi tão estranha a tantos razoavelmente antenados ao mundo e acredito que passada a onda do filme ela e Homero continuarão a ser mencionados como invariavelmente foram.
Quanto ao trânsito no meio acadêmico, sim, esse creio um dado curioso. O sucesso estrondoso de um filme assim pode desencadear estudos que apenas hibernavam nos departamentos universitários. Uma coisa que me chamou a atenção foi a escolha de uma embarcação viking para que fosse possível filmar em alto mar.
Esse anacronismo foi realçado por historiadores. Dois mil anos de história separam os vikings dos gregos da idade do bronze. Mas as razões apresentadas por Nolan para essa escolha são interessantes: não há hoje um barco grego daquela época que pudesse ser posto em alto mar. Lembremos que ele escolheu não fazer uso de imagens computadorizadas, de CGI e outras estripulias que criam efeitos especiais. Nolan viu A viagem à Lua de Méliès e disse não ao cinema de atrações tão desavergonhadamente presente nos filmes da Marvel.
Mas, sobre o anacronismo em relação à embarcação? Tendo supostamente vivido quinhentos anos após a idade do bronze, que conhecimento Homero teria de embarcações daquela época? Pensemos com calma. Quinhentos anos atrás caravelas portuguesas chegaram ao Brasil e hoje viaja-se em transatlânticos. O que quero dizer é que no tempo de Homero as embarcações não eram as mesmas de quinhentos anos antes e que Homero não tinha imagens na internet como hoje dispomos, além dos avanços da arqueologia, para ver como eram as embarcações dos aqueus.
Tanto quanto em Nolan a embarcação para Homero era imaginada e não real. A resposta de Nolan é interessante porque na impossibilidade de ter uma embarcação da idade do bronze ele procurou uma que guardasse semelhança com a daquela época. E, eu fiz uma breve pesquisa, há muitas semelhanças entre as embarcações vikings e as dos gregos da idade do bronze. Chamo a atenção para esse “detalhe” aqui porque imagino o quanto esse assunto, embarcação, pode estimular pesquisas acadêmicas em arqueologia sobre como funcionavam efetivamente as embarcações gregas três mil anos atrás.
Enfim, o que tenho em vista aqui é como um filme pode despertar o desejo de conhecer para além daquele que se acomoda no cotidiano monótono de cada pessoa. Assim como Titanic despertou curiosidade sobre a belle époque, acho que A Odisseia despertará curiosidade sobre os gregos da idade do bronze.
PH – Qual a adaptação cinematográfica que mais lhe interessou? Por quê?
HS – Na verdade, é interessante ver que a partir do poema de Homero propriamente não houve tantas adaptações de A Odisseia para o cinema. Bem recente, não vi ainda, uma versão que passou meio despercebida, O retorno (2024), dirigida por Uberto Pasolini, começa com a chegada de Ulisses em Ítaca. Houve também uma minissérie, e eu também não vi, lançada para TV em 1997 e dirigida por Andrei Konchalovsky. Até onde pude colher, é considerada uma versão bem didática. Eu precisaria ver para conferir.
Mas, então eu vi a primeira adaptação do poema, de 1911, uma produção italiana da Milano Filmes, que também adaptou O Inferno de Dante. Trata-se de uma versão curta, 44 mim., que me chama a atenção pela ousadia com respeito às condições de produção. A monumentalidade das realizações italianas com os recursos disponíveis da época é impressionante para um mundo que se habituou a ver imagens em CGI. Acho, com a atual avalanche de A Odisseia do Nolan, vale dar uma espiada nessa versão muda dos primórdios do cinema.
Vi também, e para mim foi impactante, a versão produzida em 1954 pelo Dino de Laurentis, dirigida pelo Mario Camerini e estrelada pelo Kirk Douglas. Impactante porque vi ainda pré-adolescente e Ulisses para mim exerceu enorme fascínio. Vi novamente adulto e para mim é um dos grandes – um tanto esquecido até o Nolan hoje – filmes do “gênero” peplum, uma marca das superproduções italianas nas décadas de 1950 e 60.
Curiosamente, a versão de Nolan é a primeira grande produção hollywoodiana com propósito da adaptação de A Odisseia.
Qual a adaptação que mais me interessou? Digamos que em momentos diferentes eu poderia dar resposta diferente. Hoje, a adaptação de Nolan obviamente me interessou muito, mas afetivamente em minha imaginação o Ulisses do Kirk Douglas é mais “fiel” do que o Ulisses do Matt Damon ao sentimento que tenho do Ulisses do Homero nas traduções que li do poema em português.
- Humberto Silva é professor de história do cinema na FAAP, crítico de cinema e colaborador regular do site CinemaEscrito. Paulo Henrique Silva e crítico de cinema e repórter de cultura do jornal O Tempo, órgão no qual trechos dessa entrevista foram originalmente publicados (https://www.otempo.com.br/entretenimento/2026/8/10/a-odisseia-de-christopher-nolan-adaptacao-ou-infidelidade) ↩︎
