A excessiva obsessão de algumas pessoas com spoilers tem me deixado louco ultimamente. Não apenas entre cinéfilos, muitos leitores de ficção são igualmente afetados. Em visita recente a um chat sobre Thomas Pynchon, em que se discutia a respeito do lançamento próximo de Contra o dia1, encontro fãs de Pynchon frenéticos advertindo se deveria ser lida ou não a curta resenha do romance publicada pela Time. Resenha que na verdade – horror! – menciona a morte de um dos personagens. É mais ou menos como se alguém precisasse assistir a A morte de George W. Bush2 sem saber sobre o assassinato que o título já anuncia. Honestamente, alguém perderia o interesse em ver o filme por causa do título?
Tenha a santa paciência. Essa é uma preocupação para adultos?
Minhas objeções às advertências sobre spoilers são múltiplas. Assim sendo, convém que eu aponte algumas indicações na lista abaixo:
1. Vejamos nos romances escritos desde Dom Quixote, que abre o caminho, e ao longo de grande parte do século XIX se podem ver spoilers até mesmo nos títulos dos capítulos – seguido de um cabeçalho que frequentemente antecipa ao leitor o que acontecerá. Que desgraça, o próprio Pynchon reforça essa prática com o lançamento de seu primeiro romance V.3. Como isso não foi motivo de qualquer discussão por três séculos até que passasse a incomodar bastante a leitores e cinéfilos – principalmente, ao que parece, desde a década passada? E o que dizer do título de certas peças de teatro? Shakespeare deveria ser açoitado pela audiência elizabetana por dar o título de A megera domada a uma de suas comédias, e com isso revelar o desfecho da trama? E quanto a A morte do caixeiro viajante4?
2. Tudo que se refere ao conceito de spoiler privilegia o enredo em proveito do estilo e da forma, e com isso pressupõe que todos os espectadores tenham esse mesmo ponto de partida, o que leva à implicação de que todos veriam um filme da mesma maneira. E igualmente o spoiler privilegia a ficção em detrimento da não-ficção (ainda que Terry Zwigoff anos atrás tenha reclamado a respeito de algumas resenhas a seu filme, Crumb5, incluindo o spoiler de que o irmão mais velho de Robert Crumb, Charles, tenha cometido suicídio), e para mim não está claro por que deve ser assim. Por que se supõe um spoiler para dizer que A marca da maldade6 começa com a explosão de uma bomba-relógio, mas não se supõe que seja um spoiler dizer que esse filme começa com uma grua fazendo um longuíssimo plano-sequência? É um spoiler apenas dizer que Dorothy viaja de Kansas a Oz, ou também dizer que em O mágico de Oz bruxas em preto e branco ganham cores?
Seria irresponsável e dar um enorme spoiler ao agradável livro de Gilbert Adair, The act of Roger Murgatroyd: An Entertainment7 – seu mais recente romance, um pastiche de Agatha Christie que terá de ser encomendado da Inglaterra, como eu o fiz, se você for americano e o quiser ler –, pois o final surpreendente não está tanto na identidade do assassino, mas sim na revelação de que ele é o próprio narrador em um romance narrado em primeira pessoa, exatamente como Roger Ackroyd de Agatha Christie8. Isso é algo que não se sabe previamente, porque Murgatroid, disfarçado com um nome diferente, não fez uso da primeira pessoa até a cena final, e assim ao longo do livro supomos que o que lemos teria sido escrito em terceira pessoa.
Esse mesmo romance, incidentalmente, tem um maravilhoso epígrafe, de Raúl Ruiz: “O mundo real é a soma de caminhos que não levam ao nada”. Metafisicamente, acho isso tão fascinante quanto a epígrafe de Contra o dia, creditada a Thelonious Monk: “Sempre é noite; senão não precisaríamos de luz.”… Eu teria dado spoiler aos leitores desses dois romances ao citar essas duas epígrafes? Como ouso revelar a deliciosa surpresa pela leitura dessas duas sentenças na primeira página de ambos os livros!
3. Uma coisa que me tira a paciência a respeito de spoilers é que é impossível exercer a crítica se não se pode previamente descrever nada de um filme ou de um livro. Então, se devo escrever uma resenha de um filme devo, da mesma forma, deixar de analisá-lo?
4. A estranha implicação metafísica dos spoilers é que cinéfilos e leitores que se preocupam com eles querem voltar à infância, e assim como na infância experimentar tudo como se fosse absolutamente novo. Desse ponto de vista, nem deveríamos saber antecipadamente quais filmes vamos assistir, ou que estrelas estão neles, ou quem os dirigiu, ou talvez até mesmo quando serão exibidos. E assim possamos experimentar a felicidade de assisti-los conduzidos por pais benevolentes.
Jonathan Rosenbaum, post no blog de cinema do Chicago Reader, 14 de novembro de 2006 (Tradução e notas: Humberto Silva).
- Romance épico de Pynchon publicado em 2006, no mesmo momento em que Rosenbaum escreve sobre spoiler. Vale notar, então, que a conversa no chat foi feita no calor da hora, quando o livro estava sendo lançado, e assim sendo entre leitores que não o haviam lido. A conversa teria um sentido bem diferente hoje, passados vinte anos.
↩︎ - Trata-se de um falso documentário dirigido por Gabriel Range em 2006 que simula o assassinato do então presidente dos Estados Unidos.
↩︎ - Lançado em 1963, V. causou uma repercussão impressionante e imediatamente tornou-se um fenômeno literário. Não obstante, seu autor simplesmente se recusou a se expor publicamente. Há poucas e duvidosas imagens atribuídas a Pynchon, assim como informações vagas sobre sua vida. Ele é até hoje o mais famoso escritor recluso da literatura contemporânea.
↩︎ - Peça teatral escrita por Arthur Miller e publicada em 1949.
↩︎ - É um documentário lançado em 1994 que trata da vida do cartunista underground Robert Crumb. O exemplo aqui é para reforçar que mesmo um documentário não escapa à histeria do spoiler. No caso, reclamado pelo próprio diretor. Mas, vale dizer que o referido suicídio não é mencionado no documentário: Charles o cometeu pouco antes do lançamento do filme.
↩︎ - Dirigido por Orson Welles, foi lançado em 1958.
↩︎ - Não há tradução para o português desse romance do escritor escocês Gilbert Adair. ↩︎
- Rosenbaum refere-se ao romance O assassinato de Roger Akroyd.
↩︎
