O Senhor dos Mortos (David Cronenberg, 2024)

Por Caio Cavalcanti

David Cronenberg é um cineasta que sempre se mostrou atento ao espírito do seu tempo. Em O Senhor dos Mortos, Karsh, personagem de Vincent Cassel, após a morte de sua esposa, cria uma mortalha que escaneia cadáveres e os transforma em renderizações 3D que os enlutados podem ver através de um aplicativo. O corpo humano em decomposição se transforma em imagens digitais nas quais um familiar pode se ater indefinidamente, a desmaterialização virtual é levada ao extremo. Estabelece-se um duplo do morto, aquele que aparece quando seu familiar desejar na palma de sua mão. É brevemente comentado num diálogo que o protagonista era um produtor de vídeos industriais, em sua nova empreitada é evidente que ele não conseguiu deixar para trás a fabricação irrefreável de imagens. 

Nem o morto escapa de reencontrar-se com a lógica produtiva da sociedade. Os pormenores do negócio de Karsh não são discutidos no filme, mas é claro que seu negócio é lucrativo. Esse personagem cria um serviço com a imagem virtual de pessoas mortas e cobra dos enlutados para se aterem ao que restou de seus entes queridos nesse plano. Numa era de influencers criando duplos de si baseados em suas imagens públicas nas redes sociais e celebridades sendo ressuscitadas em comerciais com IA, os temas abordados por Cronenberg se mostram cada vez mais relevantes. Desse modo, o que não é virtual em O Senhor dos Mortos é descartável. Becca, a esposa morta de Karsh interpretada por Diane Kruger, se mantém presente através da imagem de seu cadáver, de seus trejeitos replicados numa assistente de IA e da figura de sua irmã, Terry, vivida pela mesma Diane Kruger. Assim, Karsh explora a imagem de Becca ao assistir incessantemente a decomposição de seu corpo, ao depender de sua assistente de IA para suas tarefas cotidianas e ao ter um caso com sua ex-cunhada. 

Essa dependência da imagem acaba com a capacidade dos personagens de processar o real. Assim, o filme constrói-se narrativamente de uma forma na qual o espectador só pode “acreditar” no que está em tela. Quando há um corte e passa-se para outra cena, tudo que deixa de ser imagem é descartado e pode ser desmentido a qualquer momento. Motivo de críticas que alegam certo hermetismo do filme é na verdade condição para sua existência enquanto narrativa. Não é à toa que em várias instâncias do filme acompanhamos a ação através de gravações expostas em telas de celulares. Essa decisão se encontra em perfeita consonância com a proposta narrativa do filme, tendo em vista que a própria existência da gravação que nos é mostrada através da tela de um celular é, momentaneamente, atestado de sua veracidade, problemática essa que não é exclusiva ao mundo ficcional(?) d’O Senhor dos Mortos. 

Há, porém, certa irresponsabilidade na forma com que o cineasta trata a inserção de um carro da Tesla em seu filme. Cronenberg afirma em entrevista que seu “relacionamento” com seu Tesla não mudou depois de tomar ciência do comportamento de Elon Musk e que escreveu o roteiro muito antes disso. Ainda assim, o próprio ato de possuir um carro destes ou veicular um exemplar em seu filme – não encontrei nos créditos ou em entrevistas nenhuma confirmação de se houve financiamento da Tesla para O Senhor dos Mortos, o que não exime o filme de propagar a imagem do mesmo – beneficia diretamente as empreitadas maquiavélicas de Elon Musk. O que suscita certa ironia, pois ele é um dos responsáveis diretos por trás de plataformas que viabilizam diretamente a criação de duplos digitais, a própria digitalização de nossas vidas, questões abordadas pelo diretor neste filme.