Por Caio Cavalcanti
Muito se fala sobre Hamnet ser um filme manipulativo ao extremo. Isso por si só não diz muito. A manipulação no cinema deve ser julgada perante seu objetivo, afinal, é um meio para um fim. Então, aonde esse filme quer nos levar e como quer nos fazer sentir?
Acredito que Hamnet almeja em cada fotograma nos levar às lágrimas, e para muitos espectadores é exitoso na medida em que soluços podem ser ouvidos na maioria das sessões do filme. Porém, a quantidade de lágrimas derramadas não é diretamente proporcional à qualidade de uma obra fílmica. Hamnet apresenta uma urgência do choro pelo choro. A lágrima é a manifestação externa de certo estado de espírito. Ela pode ser vista, diferentemente de outros estados que se recolhem ao interior de nossas mentes. Surge uma conexão, mesmo com estranhos, ao derramar lágrimas juntos no escuro ritualístico da sala de cinema. Em momentos de escassez, essa conexão pode ser suficiente para o reconhecimento do filme como bom, apesar de si mesmo.
Hamnet, na tentativa de construir uma fachada de qualidade para sua encenação, acaba se mostrando como dono de uma maestria dramática que não possui. Esse fato culmina no uso do choro como muleta.
Também é presente em Hamnet uma pulsão caminhar na própria contramão. No primeiro plano do filme, a câmera acompanha a floresta num movimento vertical que tem fim numa zenital da personagem de Jessie Buckley deitada no solo. O filme não ousaria nos mostrar diretamente Buckley deitada no solo, não confia na capacidade do espectador de se localizar geograficamente e entender que um ambiente repleto de árvores, raízes e arbustos é uma floresta. Além disso, Buckley se encontra centralizada no quadro, vestindo um laranja que na minha sensibilidade destoa do marrom e do verde do ambiente. Ao realizar essas escolhas estéticas, a personagem domina o quadro. Sua personagem, Agnes, é de uma família de mulheres espiritualmente conectadas com a floresta, são como carne e unha. Porém, o efeito da composição estética deste plano é de separar o corpo de Buckley da floresta, fazendo com que sua persona tome conta do quadro e se separe efetivamente do ambiente com o qual sua personagem mantém uma relação quase simbiótica.
O desejo de ser percebido como algo que não é e a pulsão pela própria contramão são questões existenciais que prejudicam gravemente a obra. Hamnet é um filme que na busca desenfreada por reconhecimento antes de propriamente existir precisa ser aclamado como sendo algo que não é e, por isso, vai de encontro à sua própria natureza.
Ainda assim, o que mais me chama atenção em Hamnet é a falta de nuance na condução de sua encenação. Do começo ao fim, os nervos da mise-en-scène estão à flor da pele, isso inclui o estado emocional dos personagens, sua movimentação em quadro, suas relações interpessoais, a iluminação, o comportamento da câmera — tudo que compõe o quadro. Isso faz dos planos do final e suposto clímax do filme cinematograficamente equivalentes a todos os outros, apesar de toda a construção do enredo culminar nessa cena. Essa falta de nuance, cabe o comentário, não se manifesta exclusivamente como em Hamnet no cinema e nas mídias audiovisuais de hoje. Em Marty Supreme, o diretor Josh Safdie a adota como o próprio fio condutor de toda a encenação. O eterno clímax é a matriz de Marty Supreme e cai como uma luva para a visão que o diretor tem da desventura do personagem de Timothée Chalamet, um jogador de tênis de mesa que aplica diversos golpes para alcançar seus objetivos. Neste, a falta de nuance é razão de existir, naquele, é sintoma.
