O Agente Secreto (Kleber Mendonça Filho, 2025)

Por Caio Cavalcanti

O Agente Secreto é a pirraça mais bem construída de Kleber Mendonça Filho. Afirmo isso distante de um pensamento insular que pensa o filme como um arquipélago de ilhas distantes que raramente interagem – o roteiro, a fotografia, a arte. Afirmo pensando o filme como uma obra una, pensamento artístico bem como produto. 

A incerteza rege toda a trajetória d’O Agente Secreto. KMF tem isso muito claro em todos os estágios da vida pública do filme, da conceitualização do roteiro, do anúncio do filme com uma curta sinopse, de sua cruzada contra spoilers e da própria estrutura formal e narrativa do filme. Essa incerteza provê traços de epicidade à obra na medida em que ela se materializa pelo filme nos ser de certa forma contado e não narrado, o exemplo mais gritante se dá na tensão entre os acontecimentos no passado do passado, passado e presente, o passado de Wagner Moura, seu presente em 1977 e como a personagem de Laura Lufési o descobre no nosso presente. Sendo esse um elemento que num primeiro momento entendi como defeito, mas agora percebo como materialização do incerto que circunda o filme e sua principal qualidade. Em plena consonância, o filme apresenta uma variação formal, indissociável da já citada tensão entre os tempos da narrativa, que forma com a representação estéril e dura dos acontecimentos no presente em contraste gritante com o cor do carnaval de Recife em 1977, bem como a cena da perna cabeluda em computação gráfica destoa de todo o resto do filme, e isso não é, de modo algum, um defeito. 

O filme se envolve numa pulsão de desenterrar o passado, sobre isso me é emblemático o fato do personagem de Wagner Moura trabalhar num centro de identificação para procurar algum registro da mera existência de sua mãe. E esse fato não é nada novo na filmografia de KMF tendo em vista como ele explora o a origem escravocrata da classe média pernambucana em O Som ao Redor, a história de vida da personagem de Sônia Braga em Aquarius, o histórico de resistência da comunidade de Bacurau e seu próprio passado em Retratos Fantasmas. Vendo a publicidade de seu novo filme, minha intuição era que KMF iria se distanciar de si numa busca egóica por premiações europeias, mas as obteve nunca estando tão próximo daquilo que o fez quem é cinematograficamente. O Agente Secreto é, dessa forma, um filme arqueólogo, um filme que busca estudar o passado através de seus resquícios materiais. 

Ainda assim, apesar de considerar este filme como altamente exitoso sob diversas métricas, o aspecto que mais me contraria é sua dependência de co-produções internacionais. Não sou eu que digo que “a mão que te alimenta te controla”. A logo da Globo Filmes no começo de Aquarius me acalenta muito mais do que a do CNC no início d’O Agente Secreto, ainda que considere este um filme muito superior. Eu desejo mais KMFs para o cinema brasileiro, mais cineastas de fora do eixo Rio-São Paulo que geram debate e bilheteria dentro e fora do Brasil e acredito, porém, que o caminho para isso não é enfiar personagens de co-produção, como aparentam ser a senhora cubana de O Último Azul ou o personagem de Udo Kier n’O Agente Secreto, apesar de sua inserção estar em perfeito acordo com o todo do filme. Esses personagens são, a meu ver, a representação material da renovação do pacto colonial. Não quero dizer que desprezo a cooperação internacional pelo desenvolvimento artístico, muito pelo contrário, o problema vem à tona quando a cooperação se torna dependência, quando nossa moeda de troca é o exotismo. Também não julgo em quem navega nesse mundo, os filmes precisam de fomento, as regras do jogo estão dadas e KMF o joga muito bem.

Maceió, 28/12/2025