Por Caio Cavalcanti
Não gosto da ideia de escrever críticas de filmes já lançados há um tempo. Eu acredito que o espírito do tempo, o debate público e o próprio calor do momento ao assistir são fundamentais para a escrita crítica, então não encaro esse texto como um texto crítico, mas sim de tom mais ensaístico.
Demorei para ver algo do Kiyoshi Kurosawa, decidi assistir Cure (1997) para não ver Cloud (2025) totalmente às cegas e tive uma bela surpresa. Sinto uma grande repulsa por textos que dedicam parágrafos e parágrafos apenas descrevendo a narrativa dos filmes analisados sem adicionar quase nada de novo, por isso prefiro a brevidade de dizer que o enredo de Cure trata do detetive policial Takabe (Koji Yakusho) que sofre para se manter são enquanto investiga o caso de um criminoso que usa da hipnose para induzir assassinatos.
Desde o começo, o hipnotista Mamiya (Masato Hagiwara) me pareceu uma aparição de caráter espiritual, talvez a apresentação do personagem como um estranho sem lenço nem documento sofrendo de amnésia corrobore para um certo desprendimento da sua figura da linha de base de verossimilhança trabalhada pelo filme. Suas roupas são sujas, seus cabelos bagunçados, sua casa é desarrumada, contrastando com os figurinos e cabelos impecáveis, a compostura, a austeridade da sociedade japonesa. Assim, mesmo antes do próprio filme trazer elementos de certa forma sobrenaturais para a narrativa eu já me peguei pensando nos elementos da cultura japonesa que assimilei na adolescência jogando videogames e assistindo animes na forma dos yokais. Espíritos característicos do folclore japonês que tem o poder de alterar o humor e influenciar ações e decisões das pessoas as quais sua presença afeta. Na minha sensibilidade, a presença do hipnotista nesse filme se dá nessa ordem da existência. Suas falas difusas, comportamentos (supostamente) sem nexo são meio para o fim de desumanizar, de colocar esse personagem em outro comprimento de onda em relação aos policiais encarregados de investigar seus crimes.
Takabe subitamente se vê fora do pleno controle de suas faculdades mentais em função da influência Mamiya. Em certo ponto da história, há um confronto entre os dois, que culmina no detetive perdendo o controle, jogando objetos da mesa e, de certa forma, confessando ao seu algoz as verdades escondidas de sua psique que a confusão mental causada pela hipnose o levou a revelar. Ele desabafa sobre a condição de saúde da sua esposa, como isso afeta sua vida, etc. e, a partir desse ponto, dessa primeira perda de controle, da vitória, mesmo que indireta, da influência do hipnotista, Takabe se vê impulsivo, agressivo, fora de si. Assim, o hipnotista age como o yokai que induz suas cobaias ao crime através de sua influência.
Com isso, cria-se uma dinâmica a meu ver quase erótica entre o Takabe e o hipnotista, na medida em que Takabe não deseja encarar as verdades faladas por Mamiya e, por isso, talvez deseje ouvi-las ainda mais, o procura para confrontá-lo, para ter a experiência de não estar no controle da situação, de ser aquele que ouve e não aquele que fala, que manda. De certa forma, tentar acabar com o sentimento de culpa, com o fardo da culpa. Não sou especialista na cultura japonesa, ainda assim essa questão do espírito que induz o indivíduo a atitudes que, de outra forma, não cometeria, me cai como uma liberação da estrutura social, da moral. A culpa da traição, da agressão, da infração não é minha, esse ímpeto veio a mim através da via espiritual.
Sobre os aspectos formais do filme, que, via de regra, costumam sempre me interessar mais, Cure me toca como uma certa tendência do cinema da década de 1990 e começo dos anos 2000 que tenho dificuldade de descrever. Penso no auge que o cinema mudo se encontrava antes do advento do falado, esse auge antes de uma das várias mortes do cinema, antes de uma grande transformação estética advinda de uma transformação no meio de produção cinematográfica. Desse modo, vejo Cure como representante de um cinema narrativo realizado no auge do uso da película. O grão da imagem, a decupagem belissimamente trabalhada, econômica sem fazer concessões, o senso maneirista de que há de fato 100 anos de cinema, de desenvolvimento de linguagem, para se estudar e aplicar os melhores fatores técnicos e estéticos de acordo com o desejo criativo do diretor, todos esses fatores me são presentes em Cure e tocam minha sensibilidade de uma forma especial. Talvez até aspectos estéticos secundários da direção de arte como os carros da época, os sobretudos, a tecnologia da época, contribuam para essa concepção provavelmente romantizada da minha sensibilidade para com os filmes dessa época. Ao tentar pensar em outros representantes para essa concepção me vem à cabeça diretores dos mais diversos cujas obras são incomparáveis: Aki Kaurismaki em Nuvens Passageiras (1996), Claude Chabrol em Ciúme (1994), Krzysztof Kieslowski na trilogia das cores, Michael Mann em Fogo Contra Fogo (1995), Abel Ferrara em Vício Frenético (1995). Talvez o único fator que una esses filmes entre si e a Cure seja uma impressão fabricada pela minha cabeça, uma tentativa de racionalizar meu gosto, ou talvez de fato haja algo no cinema desses anos 1990 que valha uma investigação. Quem sabe.
