Obrigado Jean-Claude

Por Caio Cavalcanti

Primeira vez que ouvi falar de Bernardet foi no primeiro dia de aula do segundo semestre de 2023, aula do professor André Gatti que passou algum texto, acho que foi Presença Importada, para a turma ler. Não li logo em seguida, dos textos que ele passou li Cinema Brasileiro: Trajetórias no Subdesenvolvimento do Paulo Emílio. Ao longo do semestre li sobre a tal da Presença Importada e sobre a tal da Cavação dois textos no Cinema Brasileiro: Propostas para uma história. Cavação, o texto e o assunto, me fisgou e Brasil em Tempos de Cinema me prendeu. Fiquei fissurado sobre o assunto, li mais sobre, sou até hoje doido para fazer um filme sobre. Na biblioteca, peguei Brasil… e comecei a ler no caminho de casa, nesse trajeto descobri que a questão de classe permeia o cinema. Esse livro é como uma autobiografia de Antônio das Mortes e Jean-Claude afirma num texto que complementa Trajetória Crítica que Brasil… é como uma autobiografia. Se Antônio das Mortes é a história do cinema brasileiro talvez este seja um caso de se empenhar o clichê e dizer que Jean-Claude é a história do cinema brasileiro. 

Descobri que haveria uma sessão com sua presença no festival Finos Filmes no Belas Artes. Lá, com meu exemplar de Brasil… na mochila, assisti Cama Vazia, direção de Jean-Claude com Fábio Rogério. Acho que sentei bem perto da tela, e aquelas imagens dele sem nu na cama do hospital até hoje de vez em quando voltam à minha mente. Durante o debate de Jean-Claude com Natália Timmerman, escritora, algo que me marcou, não sei porque, foi a correção que ele fez ao mediador Felipe Poroger que se referiu a Cama Vazia como “seu filme”, “vosso filme” e acredito que fez menção à Fábio Rogério que talvez estivesse na plateia, ainda não sabia seu rosto, então não tenho como confirmar. Esperei no saguão do cinema até que ele saísse da sala, se lembro bem estava acompanhado de Fábio Rogério e Rubens Rewald, não tenho certeza. Tomei coragem e me aproximei, ingenuamente, pedindo um autografo. Não sabia muito sobre a condição de saúde dele. Alguém que o acompanhava riu, sem maldade alguma, e Jean-Claude me disse que não estava conseguindo usar sua mão direita. Ainda assim, gentilmente, perguntou meu nome e assinou suas iniciais no meu livro. Agradeci e fui embora eufórico. 

A segunda vez que o encontrei foi no CCBB durante uma mostra em sua homenagem. Exibição de São Paulo: Sinfonia e Cacofonia e Sobre os anos 60, curtas dirigidos por ele. Após o debate dele com Francis Vogner dos Reis, eu tomei coragem e me aproximei para pedir uma foto, o agradeci por me intimidar e fui embora. 

É aí que quero chegar. Jean-Claude me intimida desde os primeiros textos que li dele. Não sou versado na sua obra, não o conheci pessoalmente, mas toda vez que penso nele me vem à cabeça um obstáculo que hoje é intransponível. Hoje, o encaro como fã e espero que daqui a alguns anos tenha mais divergências com os seus pensamentos, porque é impossível usar essa palavra no singular quando se fala dele. Ele me lembra do quanto ainda posso aprender. Ele é para mim o mestre a ser “superado”, entre muitas aspas já não se trata de uma competição. 

Talvez o mais admire nele seja o que posso chamar de integridade intelectual, assunto tratado de certa forma no seu último curta lançado até agora com Fábio Rogério A Última Valsa. Ele não teve problema em romper com o cinema novo depois de escrever Brasil… nem com Sganzerla depois de Vôo dos Anjos. Eu admiro isso pelo fato de que não teria coragem de fazer o mesmo. Eu admiro pessoas que tem qualidades que me faltam. E admirava Jean-Claude por ser talvez o ideal do que eu almejo ser e não sou no auge dos meus 20 anos como crítico, pesquisador e professor. 

Obrigado por me intimidar.