Por Caio Cavalcanti
Já homem feito, Jorge Bodanzky descobre que a pintora Eleonore Koch (1926-2018) foi conhecida de sua mãe na juventude. Através de uma série de encontros que originaram esse documentário, nos são narradas diversas histórias durante a metragem. Acompanhamos a história da diáspora judaica durante os horrores da Segunda Guerra, a vida de uma jovem, a trajetória de uma pintora e a libertação de uma mulher, Eleonore Koch.
O título As Cores e Amores de Lore é preciso, pois nos dá, mesmo que não saibamos ao sentar na cadeira, o recorte específico que Bodanzky busca trabalhar nesse filme. A pintura e os relacionamentos pessoais de Lore. Através de uma linguagem documental simples e sofisticada, descobrimos a partir de relatos informais a trajetória de Lore como discípula de Alfredo Volpi (1896-1988), um dos ícones modernistas na pintura brasileira, destacando a luta pelo reconhecimento e para se manter financeiramente. Sobre isso, o documentário me parece um pouco acrítico, talvez blindado pela subjetividade da narradora ao tratar de Alistair McAlpine, mecenas de longa data de Lore durante sua estada em Londres e notório membro do partido conservador britânico. Senti falta de uma abordagem crítica com relação à persona complexa que nota-se na presença de alguém que é ao mesmo tempo um político conservador e um colecionador de arte. Além disso, os diversos casos de amor de Lore, que se envolveu com nomes como Paulo Emílio Salles Gomes, Zbigniew Ziembinski e Torquato Neto, são destaques. Ainda assim, a pintora sempre se manteve dona de si, opondo-se ao casamento, mas aceitando de braços abertos o calor do sentir amor.
Todos os relatos se dão a partir de uma perspectiva de como Eleonore Koch interagia com os pares, e não do contrário. Assim, Koch se mantém sempre como sujeito de seu próprio pensamento, como se nota ao longo de sua vida, e de sua própria história, como se nota na realização do próprio documentário no qual Lore conta trajetória da forma que deseja, com os destaques e omissões que deseja e, é claro, com o viés crítico e de narrativa que Jorge Bodanzky busca transmitir com a realização deste documentário. O tema de figuras relevantes serem sujeito de suas próprias histórias e não meros objetos de estudo distanciados muito me interessa, tendo em vista o romantismo com o qual as memórias e acontecimentos históricos podem ser retratados e as possibilidades dialéticas que nos são abertas através da comparação das memórias quentes de uma figura como Lore com o estudo histórico científico distanciado de sua história e fortuna crítica.
Jorge Bodanzky trabalha a condução de seu novo documentário a partir de um ponto de vista extremamente pessoal, que não tende a ser excessivo, porém carinhoso. É um carinho de filho para mãe e uma conversa de mãe para filho, tendo em vista semelhança de idade e origem entre Rosa Bodanzky, mãe do cineasta, e Lore, ambas judias imigradas radicadas no Brasil, e a idade do realizador, sendo similar ao filho que Lore nunca teve.
Nesse sentido, o que mais me tocou no filme foi a câmera de Bodanzky. Quase sempre subjetiva, tratando da troca do cineasta com Eleonore Koch, ela traça um retrato da pintora de forma intimista, abusando de planos fechados, com Koch como destaque absoluto. Dessa forma, Bodanzky aponta a câmera e, através de sua condução, de sua decisão do que filmar e do que deixar de fora, abre um portal para a história que acontece diante do espectador. O exemplo máximo são os planos dedicados às obras de arte, em galerias ou da coleção de Lore, com uma composição que se assemelha ao olho do frequentador de galerias de arte – prestando atenção a cada detalhe, pincelada, cor e amor de Koch.
As Cores e Amores de Lore estreia nessa semana, dia 13 de fevereiro nos cinemas.
