Por Caio Cavalcanti
Tenho O Auto da Compadecida 2 (Guel Arraes e Flávia Lacerda, 2024) como um dos piores filmes do ano, não que isso signifique muita coisa.
O cinema brasileiro é historicamente incapaz de copiar as outras indústrias do mundo, como se vê desde as experiências industriais cariocas nos anos 30. Nesse sentido, esse filme marca a incapacidade de recriar uma franquia de filmes high-concept. Duvido muito que um tempo significativo de pensamento cinematográfico tenha sido empenhado durante a pré-produção. Há, porém, um bom retrato dos embates políticos do interior do país, as disputas eleitorais baseadas em famílias centenárias, muitas de origem escravocrata e que mantêm o domínio até nas terras que lhe foram dadas por “direito divino”, que mantêm-se no poder através da manutenção da subsistência do povo que as elege, como no caso do personagem de Humberto Martins, Coronel Ernani, e a figura de liderança carismática que chega ao poder através da manipulação popular através dos meios de comunicação de massa, como o personagem de Eduardo Sterblitch, Arlindo. Nenhuma dessas críticas vem como surpresa, tendo em vista que este é um filme que não tem razão outra de existir a não ser lucrar com a economia da nostalgia que se faz tão presente, tendo em vista o fato que as 10 maiores bilheterias do ano serem sequências. O comercialismo importado ao invés de um cinema comercial nacional relevante, antropófago e honesto. A propaganda de uma marca de cerveja numa cena que mais parece (pasmem) um comercial de cerveja, tendo em vista a linguagem altamente publicitária utilizada, sumariza. O filme se trata do ápice do comercialismo na pseudo-indústria que temos hoje, mascarado de forma desonesta pelo título da obra de Suassuna que, inevitavelmente, desperta uma sensação de nostalgia.
Os cenários, intencionalmente colocados no vale da estranheza, conceito usado para explicar o estranhamento a alguma representação do real que não o é idêntica, são facilmente confundidos com algo inacabado, mal-feito, como acontece com um ônibus animado em 3D que é uma das primeiras imagens vistas no filme. A decisão do filme ter sido rodado em estúdio não trai apenas o legado do primeiro filme, com o qual a comparação é inevitável, quanto a essência do movimento armorial de Ariano Suassuna, preterindo a valorização da real cultura nordestina pela inovação tecnológica tecnocrata da gravação em estúdios com uso de novos LEDs virtuais para recriar os cenários de forma mais fácil. Flávia Lacerda argumenta que a gravação da sequência em estúdio foi “grande desafio”, como expõe uma manchete no G1 da Paraíba. Ainda assim, qualquer iniciante na produção audiovisual sabe que a gravação em locação é muito mais complicada Por diversos motivos, desde o transporte de equipamentos caríssimos até as condições meteorológicas, a gravação em locação não apresenta o ambiente controlado que um estúdio propõe. Nesse sentido, para justificar o uso do estúdio, me são plausíveis várias explicações, como questões orçamentárias, agenda, praticidade de produção, tecnocracia, etc., porém a apresentação do estúdio como um desafio maior me cai como desonesta.
Toda a teatralidade característica do primeiro filme é usurpada desta sequência pelas terríveis escolhas de uso de câmera, extremamente dramatizada, abusando de enquadramentos abaixo ou acima da altura dos olhos dos atores, os plongées e contra-plongées. Com “uma câmera dramatizada”, quero expor a utilização da câmera para impor ao espectador certa função dramática, certa emoção, algo muito característico no cinema clássico. Veja bem, não é que o primeiro Auto da Compadecida seja um filme com uma linguagem extremamente moderna, nem que não use a câmera para funções dramáticas, mas assim o faz de forma muito mais comedida e inteligente, sempre retornando para planos gerais através de uma sagaz montagem de cortes rápidos. Esse fato, a câmera dramatizada, adiciona uma barreira a mais para o reencontro real do espectador com esses personagens que lhe são queridos. Falando neles, Chicó (Selton Mello) e João Grilo (Matheus Nachtergaele) são os pontos fortes do filme. Suas atuações são marcantes e à altura do legado do primeiro filme. Ainda assim, são prejudicadas pela mise-en-scène tendo em vista a falta de distância dramática teatral da câmera até seu objeto. Perceba, uma câmera mais afastada da ação, o oposto de um close, por exemplo, valoriza muito mais a corporalidade e o dinamismo da atuação da dupla, além de valorizar a direção de arte e “cenografia” (para entender o que quero dizer com câmera mais afastada lembre dos curtas dos anos 1910 estrelando, por exemplo, Buster Keaton, nos quais a câmera sempre mantém distância de seu objeto, da ação da cena). Nachtergaele, inclusive, argumenta em entrevista que a sequência seria mais “teatral” por ter sido filmada em estúdio, o que está longe de ser verdade. Esta poderia até ser a intenção da produção mas não é o que o filme apresenta em sua materialidade, sendo traído pela própria encenação. De qualquer forma, tenho para mim que um filme o qual a atuação é o ponto forte é, na esmagadora maioria das vezes, medíocre.
Apesar de tudo, seus defeitos e qualidades, O Auto da Compadecida 2, seguindo o sucesso de Ainda Estou Aqui, é um sucesso de público brasileiro, um sucesso do cinema brasileiro, levando mais de 1 milhão de espectadores às salas, o que por si só já é uma vitória, ainda sempre passível de críticas.
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