Deixar Emergir: Como Começamos a Produzir nos Tempos de Hoje? (Tradução)

Deixar Emergir: Como Começamos a Produzir nos Tempos de Hoje? 

Por Elodie Tamayo
Publicado originalmente na Cahiers du Cinéma Nº 814 (Novembro/2024)
Tradução por Caio Cavalcanti

A partir do testemunho de Christophe Rossignon (co-diretor do departamento produção da Fémis1) e da experiência de quatro empresas emergentes – Société Acéphale, Insolence Productions, Mabel Films e Parcelle Films – se traçam novos caminhos guiados por uma busca pela polivalência, de independência e de manutenção de ferramentas. 

Como adentrar à produção hoje em dia? “Meio que por acidente”, como Romain Blondeau, fundador da Parcelles Films em 2024, após sete anos na CG Cinéma – que perpassa do jornalismo à produção através de reportagens sobre gravações? Ou “violentamente“, com o cineasta se apropriando dos processos de produção, como Lorenzo Bianchi, que criou durante seu mestrado na Universidade Paris 8 a Société Acéphale com Anthony Lapia, a qual o primeiro longa-metragem, After, está previsto para este outono? Se os caminhos dão margem a aberturas, é pelo seu gosto em comum pela polivalência, aplicada a todas as etapas da produção. Para Joséphine Mourlaque (Mabel Films, co-fundada em 2017 com Antoine Salomé), se tornar produtora é amar se aventurar em todas as funções. Anaïs Bertrand (Insolence Productions, que trouxe especialmente Chien de la casse de Jean-Baptiste Durand em 2023) preza pela polifonia do termo inglês “filmmaker” que reúne diretores e produtores num mesmo nível. Christophe Rossignon (Nord-Ouest Films, antigo co-diretor do departamento de produção da Fémis) confirma o desejo de totalidade dos novos alunos pela apreensão de um vasto campo de saberes criativos, técnicos, jurídicos e financeiros, baseado numa mentalidade de autonomia e empreendedorismo. 

Esse aspecto polivalente abriga perfis diversos. Se a Fémis oferece uma via eficaz com relação a oportunidades, os caminhos permanecem variados (faculdades de cinema, cursos de economia ou de ciências políticas, inclusões profissionais prévias no setor audiovisual…). Para Anaïs Bertrand, que começou a multiplicar suas experiências (de leitora à produtora de efeitos visuais) e continua sua formação em workshops internacionais, a aprendizagem no trabalho corresponde a uma necessidade de adaptação. “O dia no qual um produtor deixar de ser curioso, ele está morto.

A profissão engloba realidades diversas – seja trabalhar por conta própria, para uma empresa ou até mesmo para um coletivo, na produção executiva, associada, no desenvolvimento ou na direção de produção, seguindo lógicas industriais ou artesanais… Mas o modelo francês de independência é latente, e o cenário dominante é o de estabelecer sua própria estrutura. O impulso primário consiste em criar ferramentas adaptadas para realizar os filmes que gostaríamos de ver. Trata-se de preencher uma lacuna afirmando uma linha editorial forte (do cinema de gênero da Insolence Productions até a militância política da Société Acéphale). Para Lorenzo Bianchi, “A Acéphale forma um todo“, um universo alinhando a etapas de produção pouco padronizadas. Às vezes, a ferramenta vem primeiro. Assim como a Parcelles Films, empresa facilitadora regida por Romain Blondeau para estabelecer ritmos de trabalho mais atenciosos, num cenário de intimidade com os autores. 

Efetivamente, o sistema encoraja a sempre passar primeiramente pela porta do curta metragem. Essa etapa permite aprender a profissão, ser visto, produzir por conta própria ou experimentar os meios de subsídio e, acima de tudo, criar “famílias de cinema” próprias, entre autores, produtores e técnicos. Começar uma produtora de curtas é acessível. Poucas coisas são necessárias: Um capital mínimo para custos gerais e bancários, um computador, um telefone, e um pouco de desenvoltura, facilitada pela acessibilidade do mundo digital. 

A questão, uma vez lançada, se concentra no futuro da sociedade. Christophe Rossignon nota que o cenário econômico contemporâneo faz com que aqueles e aquelas que saem da Fémis se abram ao audiovisual (séries, programas únicos para a televisão, videoclipes e conteúdo para as redes sociais), mas também começarem como assalariado para diminuir o impacto de quatro anos de estudos não financiados. Para os independentes que permanecem apenas no cinema, a espera pode ser longa até que a atividade se torne lucrativa. Joséphine Mourlaque destaca que, ao contrário do senso comum, emergir leva tempo, tanto para a produtora quanto para os autores: conceber uma estrutura, desenvolver um primeiro longa-metragem, afirmar uma expressão artística se dá com o tempo. Nesse sentido, a transição para o longa-metragem constitui um desafio maior. Para acompanhar essa transição, especialmente no aspecto jurídico, Anaïs Bertrand trabalhou no SPI (Syndicat des producteurs indépendants2) para cerrar os laços entre o setor do curta-metragem (se trata do único sindicato que defende os interesses do setor) com o do longa-metragem. Para ser elegível ao auxílio do CNC3, as empresas que se aventuram no longa-metragem devem fornecer garantias, tanto em capital (45.000 euros no mínimo) quanto em experiência em produção executiva. Apesar de reconhecer a validade dessas exigências, Romain Blondeau espera mais flexibilidade, mediante cada caso. Para a Mabel Films, que prepara o próximo filme do trio de Mourir à Ibiza (Anton Balekdjian, Léo Couture e Mattéo Eustachon), “a ideia é de guardar, nesse cenário financeiro mais estressante, o apreço pelo protótipo e pela tomada de riscos, por exemplo em preservar a improvisação. O estereótipo não é uma garantia de sucesso, e a audácia pode mesmo ser valorizada pelo mercado!”. Da mesma forma na Acéphale, o desafio é defender práticas de mise en scène nem sempre compatíveis com a codificação dos financiamentos (onde o roteiro prevalece, e que torna inconcebível filmar antes de uma produção). 

No campo da produção independente, que motiva a nova geração, é finalmente a vez de uma mudança de modelo, mais horizontal em relação aos autores (o investimento dos cineastas na co-produção de seus filmes se solidifica), mas também entre produtores. “A indústria é cada vez menos hereditária, a sociologia do trabalho se renova. E essa geração é menos possessiva com seu território, menos competitiva, ela discute mais sobre seus projetos ou se engaja em co-produções”, resume Romain Blondeau. 

Comentários reunidos em Paris, nos dias 13, 15 e 17 de outubro de 2024. 

  1.  École nationale supérieure des métiers de l’image et du son. Instituição de ensino superior francesa, sediada em Paris, voltada para o ensino do cinema e audiovisual. ↩︎
  2.  Sindicato de Produtores Independentes. ↩︎
  3.  Centre national du cinéma et de l’image animée. Órgão estatal francês que, de certa forma, tem funções similares às funções da ANCINE no contexto brasileiro.  ↩︎