Ainda Estou Aqui (2024), Walter Salles

Por Caio Cavalcanti

O filme busca, a partir do texto de Marcelo Rubens Paiva, retomar a memória da ditadura militar. Até que enfim. As ditaduras financiadas pelos Estados Unidos na América Latina são tema de vários filmes recentes: O Conde, Argentina 1985 e este. Porém, o cinema brasileiro novamente segue uma tendência sem tomar a iniciativa. Enquanto argentinos rememoram sua ditadura nas telas já em 1985 com História Oficial, por exemplo, e julgavam déspotas na corte civil, o cinema brasileiro tardava para tocar neste assunto. 

Um causo interessante: Na minha sessão, na cena da morte do cachorrinho, os suspiros do público foram audíveis. Em nenhum outro momento do filme houveram suspiros como este. Esse acontecimento demonstra o caráter manipulador (termo usado aqui sem juízo de valor) do filme, e do próprio cinema. Em comparação, não houve suspiro em cenas na qual, por exemplo, mãe e filha são forçadas a colocarem capuzes por oficiais da ditadura militar para serem levadas para depor em um quartel obscuro. Será que o ápice da sensibilização contra os crimes da ditadura é a morte de um cachorro? Acredito também que filme peca gravemente no personagem de um militar que dá informações para Fernanda Torres enquanto está presa e que depois afirma que “não concorda com tudo isso” pois qualquer mísera tentativa de empatia com um oficial da ditadura militar, um agente do regime, sendo exposta numa tela de cinema é uma ação contraproducente e irresponsável para a própria luta pela memória dos crimes do mesmo e do esforço dos falecidos. 

A adequação formal ao cinema americano em função da adesão popular é característica do cinema da retomada. Este filme é essencialmente de retomada. Walter Salles surge nesse movimento que visa a reconquista de público e produção, tendo em vista a crise Collor/Embrafilme.
Ainda assim, os tempos mudaram. No ano de 1993, foram produzidos 13 longas-metragens no Brasil. Já em 2017, auge da produção recente, 185 filmes foram lançados. Além disso, o cinema brasilerio marca presença regularmente nos principais festivais de cinema do mundo. A indicação mais recente ao Oscar foi em 2020 com Democracia em Vertigem. Além disso, esse ano em Cannes tivemos Motel Destino de Karim Ainouz, que junto de Kleber Mendonça é figurinha carimbada no festival. Baby, de Marcelo Caetano. Em anos recentes, Sem Coração em Veneza, Propriedade em Berlim, etc. etc. etc. O Cinema brasilerio está aqui. Diminuto, sim. Subdesenvolvido, sim. Mas existe, diferentemente dos tempos de Alma Corsária.

 A repercussão de Ainda Estou Aqui me incomoda muito. Pessoas postando e, pior, realmente acreditando, que este filme é uma prova da presença do cinema brasileiro. De sua pujança. Pelo amor de Deus!…

Meu ponto é: Walter Salles não é o salvador do cinema brasileiro. O cinema brasierio existe no âmbito doméstico e internacional sem este diretor. Perceba, com esta afirmação não há juízo de valor sobre sua obra. Minha crítica é para a percepção errônea de que Salles seria um Atlas segurando o cinema produzido no Brasil. Por exemplo, em questões formais o filme tira muito do cinema hegemônico americano, apesar de belas incorporações de super 8 na narrativa. 

Em suma: Se você realmente se importa, não republique manchetes em seus stories sobre a bilheteria do novo filme de Walter Salles, ele não precisa de você.

Viva o Cinema Brasileiro, qualquer que seja.

Viva o cinema independente

Viva o cinema universitário.