Saturday Night (2024), Jason Reitman

Por Caio Cavalcanti

O texto a seguir é composto por reflexões movidas por uma grande memória afetiva pelo SNL, que muitas vezes pode obstruir o senso crítico.

Realizar um filme sobre a primeira transmissão do Saturday Night Live é uma tarefa ingrata, tendo em vista o contexto complicadíssimo o qual esta se insere. A maioria das personalidades que nesta noite se encontravam nos corredores do 30 Rockefeller Plaza fazem parte do panteão da história da comédia americana. Muito acontece, tanto naquela noite de 11 de outubro de 1975 quanto na versão ficcional de aproximadamente 1 hora e 50 minutos que assistimos. A diferença é que o filme apresenta personagens ao espectador, e estes devem ser devidamente desenvolvidos, o que é impossível num filme de duas horas. 

A direção não me incomoda, o estilo mais acelerado da decupagem e a câmera sempre em movimento me parecem adequadas a proposta e ao contexto o qual a narrativa se insere. Os maiores problemas do filme se encontram nas relações sociais que permeiam o conflito de seus protagonistas. Lorne Michaels (Gabriel LaBelle) é um jovem produtor, um visionário… que sonha com a estreia de seu programa visionário… de comédia. Ele anda pelos corredores da emissora repetindo expressões como “avant-garde” e “pós-moderno”. Um dos pontos altos da minha experiência com o filme é a reflexão de como o programa SNL foi absorvido e hoje configura o status quo da televisão americana. Nascido como “avant-garde“, o SNL já configurou um padrão nos primeiros anos de sua existência, a qualidade caótica do programa já deixou de existir há mais de 40 anos. Apesar de ser o ponto de partida e validação para muitas novas vozes da comédia americana, o SNL não detém mais o teor inovador que detinha na sua estreia em 1975. 

Outro ponto fraco do filme é a forma com que demonstra as relações entre chefe e funcionário e a forma de trabalhar de Lorne Michaels. Este é, no filme, um terrível produtor. Não há possibilidade de um ator, qualquer seja o nível da produção, não ter assinado um contrato 10 minutos antes de uma estreia em rede nacional. Michaels é um visionário, tem seu nome no Olimpo da cultura americana contemporânea (pós-moderna? não), mas o filme romantiza muito o despreparo e a sua genialidade a ser provada. Ele penava para diminuir o tempo do programa e, faltando 10 minutos, tira todos os papeis do quadro e magicamente os rearranja. Além disso, ele acredita que pode domar a indústria, sobrepujar a NBC, personalizada em David Tebet. Essa figura pode acabar com seu sonho, mas a briga de Sansão e Golias ainda é romantizada e, ao final, David Tebet tem um “momento de lucidez” e deixa o programa ir ao ar, novamente uma exagerada romantização. 

Os personagens deste filme são representações de pessoas reais, e vivas. Esse fato delimita a perspectiva crítica de desenvolvimento criativo desses personagens. Assim, o filme tenta propor uma mea culpa perante o comportamento inapropriado de Dan Aykroyd com as mulheres e de Chevy Chase com qualquer ser humano e perante o fato de Garrett Morris supostamente ter sido uma contratação por diversidade. Porém, devido aos fatores citados acima, o filme não consegue aprofundar qualquer núcleo, resultando em soluções simples para problemas complexos, desde assédio no set até a resolução dos vários núcleos propostos pela estrutura da narrativa. 

A seguir comentários sobre alguns personagens representados na trama, tendo em vista que Lorne Michaels e David Tebet já foram comentados anteriormente:
Rosie Shuster (Rachel Sennott): Apesar de ser retratada como uma mulher forte e independente, todas as suas aparições em tela são em função de um homem, seja o desenvolvimento de seu relacionamento com Dan Aykroyd ou a subtrama de qual nome ela irá utilizar nos créditos do programa, decisão que deixa para Lorne Michaels.  

Dan Aykroyd (Dylan O’Brien): Uma representação que coloca na balança de forma adequada os comportamentos erráticos e seu humor afiado. 

Chevy Chase (Cory Michael Smith): Uma ótima imitação. Chevy Chase era de fato uma pessoa ruim com a habilidade de ser terrivelmente engraçado, tanto na fala quanto com sua expressão corporal.

Garrett Morris (Lamorne Morris): O mesmo erro é cometido: Garrett Morris era desperdiçado no SNL e sua representação foi desperdiçada neste filme. O que resta é um homem em crise, crise essa que individualiza ainda mais sua presença, tanto no programa quanto no filme. 

Gilda Radner (Ella Hunt): Seu tratamento na narrativa é criminoso. Gilda era um sol, uma grande comediante e personalidade magnética renegada aos cantos das telas. 

Laraine Newman (Emily Fairn) e Jane Curtin (Kim Matula): Infelizmente, é com muito pesar que uno os parágrafos de Laraine Newman e Jane Curtin. Duas grandes comediantes cuja influência é gritante numa geração inteira de mulheres comediantes nos EUA. Newman é apenas uma coitada apaixonada e Curtin nem isso. Grande decepção. 

John Belushi (Matt Wood): Uma besta sem um pingo de racionalidade.