Reflexões sobre Megalópolis (2024)

Por Caio Cavalcanti

Um filme que só poderia ser feito nos Estados Unidos, tendo em vista a relação simbiótica que, principalmente um cineasta do porte de Coppola, mantém com a indústria. Percebe-se que mesmo sem um grande estúdio por trás o filme ainda se baseia no que resta do sistema de estrelato com a cara de Adam Driver estampando o cartaz do filme e a publicidade que nomes como Giancarlo Esposito e Aubrey Plaza trazem, além de nomes como Jon Voight e Dustin Hoffman em papeis coadjuvantes. Além disso, tendo em vista o nome de Coppola como um cineasta já estabelecido na cultura americana, seu nome já traz hype, já deixa o filme em evidência na grande mídia desde as manchetes que anunciavam que este era supostamente o “projeto da vida” do diretor, que passou x anos escrevendo o roteiro, e que quase havia ido a falência para financiar o projeto. Esses fatores, percebe-se, são todos extra-filme. A fama de autor que Coppola conquistou, merecidamente, com O Poderoso Chefão, A Conversação e Apocalypse Now, mas que pena para manter, as circunstâncias da produção, importantes para a análise mas nunca mais importantes que o proposto pela obra que chega às telas, o peso dos nomes do elenco – tudo isso não exime a obra de seu envolvimento com a própria indústria que busca criticar. 

Apesar da construção imagética marcante, o filme me parece se basear até demais no texto para a condução de sua narrativa. Texto esse inspirado pela experiência do diretor ao navegar durante anos pelos corredores da indústria cultural americana. Claro, ele sabe mais do que eu sobre o funcionamento da mesma. Ainda assim, o filme me parece ingênuo, me parece acreditar que o diretor crê que ainda há espaço para a pôr a arte em primeiro lugar, para o coração, em meio às cifras. Não leve a mal, há de fato espaço para a arte na indústria, afinal o cinema é a arte característica da modernidade industrial – Hitchcock, Welles e até o próprio Coppola provaram. Ainda assim, na indústria, quem manda é o dinheiro, aqueles que dão as ordens são homens de negócios, tubarões, não artistas. O filme me remete muito à uma utopia, de pacífica convivência entre indústria e artista e pouco ao fato de que as duas podem sim coexistir, sempre com o capital tendo domínio para a relação.

Assim, o final do longa é de um idealismo de conciliação de classe terrível, tendo em vista que o ideal de liberdade total artística não pode coexistir numa utopia com a indústria, como o personagem de Adam Driver aceita conviver com o prefeito. O final utópico seria alcançado apenas através de um rompimento radical. Ainda assim, é mais fácil pensar no fim do cinema do que no fim da indústria cultural.

Lapsos como este são produto de um problema maior do cinema americano: a falta de uma crítica cinematográfica desatrelada ao consumo. Muitas vezes, nos EUA, a relação cineasta-crítica se resume a saber se o crítico de tal jornal gostou ou não do novo filme do diretor. A crítica atua muito mais como guia de consumo do que como vetor para pensamento cinematográfico.